domingo, 27 de janeiro de 2013

*Carta de uma dor


Minhas cartas talvez não cheguem  em tempo certo. Talvez precisem percorrer por mais dias os mares todos e as estradas empoeiradas.

Mesmo assim, eu as escrevo com o mesmo e antigo ímpeto: minha mocidade disse adeus, por fim.

E eu vejo no espelho um rosto que não me assusta, pelo qual tenho um profundo respeito.

Por isso me lembrei de nossas conversas diante do antigo farol. Sei que você se lembra também.

A madrugada nos pegava cansados mas felizes, repletos de ideias e sonhos tantos que nem éramos apenas nós, mas uma multidão.

Hoje, amigo, não tendo com quem dividir a paisagem vista do farol, minha solidão entristece e chora algumas vezes. E olho para o céu buscando o mesmo infinito onde, um dia, encontrei meus sonhos

e a alegria de deixar brotar uma vida de mim.

Eles não esão lá. Estão, talvez, no fundo do mar que o farol ilumina e até tenha se transformado em corais.

O fato é que não me pertencem e os que estão por perto me torcem o nariz.

Eles sim, acham-me envelhecida e reviram os olhos quando digo qualquer coisa que possa ter o tom

de ensinamento.

Coisas da vida, diria você, com seus olhos graves e parados nos meus.

Coisas da vida, concordaria eu, tomando sua mão para me lembrar que tenho alma

que me responde. Onde quer que esteja.

..

Espero que o tempo lhe esteja sendo ameno.

Que a vida tenha um belo sorriso nos lábios ao encontrá-lo, todas as manhãs.

E que, quando os deuses permitirem, encontre comigo

nas praias de areia branca e fria.

...

segunda-feira, 16 de maio de 2011

***carta de um dia de chuva e frio




Enfim, o inverno está para chegar. Isto está bem mais evidente por esses dias. 
Tenho aqui ao meu lado uma xícara de café com creme e me delicio ouvindo um piano em jazz. É delicioso o frio para ensimesmar-se e se acarinhar, não é?
Já não sei em que hemisfério você está, por isso, se no momento em que ler esta carta estiver sentindo calor, nem se importe com meus contornos invernais. E com a minha provável falta de assunto.
Li algo, há pouco, sobre o pessimismo. Creio ter sido de Einstein. Que o pessimismo já se trata de um começo errado - é isso?
Não sei ao certo. Apenas quero comentar que me lembrei de uma conversa que tivemos em um dia distante, na gruta da Lapa. Havia, então, um cheiro bom daquele verde úmido que nos cercava e era...começo de outono.
Falamos na ocasião sobre tantas coisas, mas, sobretudo, sobre o pessimismo.
Eu manifestei minha preocupação sobre algumas coisas que, intuía, iriam resultar de alguma atitude minha.
Você me deu uma aula a respeito de como não deveria me pré  ocupar de algo cuja certeza nem se delineava ainda. Estranho. Claro que não foi a primeira vez que alguém me falou sobre o mal que há em ser pessimista, em tentar adivinhar o que há de vir. Contudo, de todas as vezes que alguém,  incluindo meus pais, falou-me a respeito,aquela entrou na alma de uma forma decidida, definitiva.
Ah...a importância de termos amigos que nos chamam para dançar as dificuldades mais enraizadas!
Tanto que, mais uma vez, ao ler algo sobre o pessimismo, imediatamente minha mente foi remetida àquele dia, amigo.
Então, como não mais me apego a preocupações inúteis e faço disso uma marca a mais em meu sorriso, lembrei-me de escrever mais uma carta. Porque havia muito eu não me dedicava a fazê-lo, para você.
Pois bem, que ela o encontre risonho. Aquele riso seu que ilumina a sala de estar de qualquer casa ou o mais mal iluminado pub inglês.
E que eu possa estar em meio a estas letras, quem sabe abraçando mais apertado a saudade que me aquece mais ou menos como a xícara de café com creme que acabei de tomar.
Sorrio. Já me despeço.
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sábado, 14 de agosto de 2010

*carta de um novo sábado


Ainda assim, os sábados parecem ser sempre os mesmos, por aqui. O que muda, são as estações, de fato.
Hoje, é um sábado de inverno.É noite de sábado de inverno, do mês de agosto-desgosto [?]
E, é claro, muda também a imagem que me olha, do espelho, enquanto penteio os cabelos.
Eu me lembro de você, meu amigo, e sorrio.
Um sorriso sem memória. Afinal, há quanto tempo tem sido o destinatário de minhas cartas e, ao mesmo tempo, o remetente de notícias breves, porém valiosas?
Não, não sei. E não há por que saber, tentar buscar o fio da meada, puxar até encontrar o final [começo]: o que vale é a constância de tudo. Principalmente, das palavras que cruzam céus e oceanos e caem, mornas ainda, em meu colo e no seu.
Estou com algumas aqui, diante de mim, na verdade. Palavras.
Elas têm ritmo, cor,som, cheiro e até sabor, para mim.
Para mim e para outras tantas pessoas que se apaixonam, de forma inexorável, por elas.
Algumas estão aqui, portanto. Jazem em meu colo, quietas, mansas, mas ainda mornas.
Vêm de algum lugar chamado Aprilia e eu gosto do som. Repito várias vezes, em voz alta para ouvir. Aprilia...Aprilia...
Leio que é na região do Lácio, Itália. [e por falar em palavras...você escreveu justamente da região de onde a fluência das palavras que trocamos saiu...]
Aprilia, Aprilia...
Reconheço na maneira como escreve que estava, na ocasião, gostando pouco do lugar.
Isso não é comum em você.
Não é comum que não ame cada passo que dá, cada gole sorvido, cada cheiro sentido.
Talvez seja apenas o meu olhar percorrendo suas palavras escritas na letra bonita e apressada.
Talvez seja, apenas, a inquietude que me consome, às vezes, em pensar que todos podemos estar sujeitos a amar menos a vida em determinados momentos.
Mas...não gostar da vida em alguns pontos dela não significa que não a amemos e que estejamos desistindo dela.
É amigo...há muito tempo, tirei de mim o direito de sentir algumas coisas...
mas só me dou conta disso agora...
Sábado à noite.
Tão igual, tão mesmo. E, tão sábado em todos os poros da noite fria!
E eu, eu escrevo sobre os desatinos de minha mente/alma.
Porque você irá ler e pensar, comigo, nas agruras que, sabemos bem, nos enredou.
E que outras poderão ainda vir.
Compartilhar tem sido meu apego.
Receba um sopro mais aliviado de mim.
E as luzes gravadas em minhas retinas: da cidade que já foi sua.
.
Eu fico. As palavras vão.
Não...eu vou...as palavras é que ficam.
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sexta-feira, 7 de maio de 2010

* carta de mais um dia


Assim  é que o tempo me encontra, amigo. Um dia e mais um dia e outro dia, no carrossel de minhas limitadas superações. Tenho lido e tenho escrito e,quando saio às ruas, elas me parecem ter um colorido diferente.Por falar nisso, somente ontem me dei conta de que a árvore de 'espírito santo' finalmente floresceu.
E já não era sem tempo. Da janela costumo olhar para ela.
Gosto do contraste entre o verde escuro e o vermelho vivo das flores, aveludadas, fortes.
 Eu me lembrei de você. Há quanto tempo não a vemos juntos?
Bobagem. Juntos estamos e estaremos e este fato já é árvore a florescer continuamente.
Gostaria de tomar um pouco mais de meu tempo para a leitura. Há, ali na estante, bem uma dezena de livros à espera - devo dar-me o tempo.  Pois é assim que mais viajo,não é? Desde há muito.
Desde quando descobri que bela caravela é cada livro....
...

Não sei se estará chovendo ainda quando amanhecer.
O fato é que os dias já estão mais curtos e o vento mais frio.
Sei da proximidade do inverno e eu o desejo muito,
 para que eu possa brincar de me aquecer junto ao fogo e envolta por uma manta.
É delicioso o aconchego.
É mágica a luz.
Neste momento, chove o bastante para queo barulho me envolva, envolva a cidade, que ainda chora você.
Isso é real.
...
Quando voltar, pode ser que não encontre um ou dois amigos. Soube de fonte segura que pensam, alguns, em mudar-se para "além dos temporais". Haverá mesmo um rochedo seguro por lá?
...
Por um segundo eu o imaginei num alto rochedo, num lugar muito parecido com a Cornualha. É lá que você está? Gostaria de saber. Por vezes, gostaria - e muito- de estar onde você está.
É quando maldigo nossos caminhos tão paralelos, desecontrados...

Mais um dia, meu amigo. E, quando me deitar, pensarei um pouco mais em seus olhos escuros.
Mais um dia que preenchi de ausências e presenças. Do que há e do que já foi.
Fecho os olhos e sinto o vento em meus cabelos ao mesmo tempo em que devora meu rosto.
Estou no alto do rochedo com você. O mar, lá embaixo, grita, cantando para tempo algum.

Escreva-me um poema. Eu o terei comigo, grudado à alma e à pele.

Até breve, amigo.

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****arte


robert hope

quarta-feira, 28 de abril de 2010

*carta de notícia triste...


Esta carta vai para o porto das horas difíceis, meu amigo. Sei que é lá que deve estar, agora que os ventos e o mar se mostram agitados, com o ar violento dos novos tempos.
Quase inverno aqui, no hemisfério sul.
E não tenho notícias boas.
Minha mãe partiu do lado de cá na última quinta-feira, quando pelo céu chegava uma frente fria que desaguou exatamente na hora da despedida. E havia tanto barulho, entre os trovões nascidos dos raios que rasgavam o céu que quase não pude ouvir meu próprio pranto.
O mundo inteiro parecia gritar, enquanto a água caía pesadamente sobre telhados e calçamentos e as árvores dançavam dolorosamente, sacudidas por um vento rápido como se soluçassem, perdidas, exaustas.
Por um estranho instinto fiquei, na capela mortuária, a olhar pela vidraça toda aquela água que caía sobre a cidade que anoitecia. Era uma prisão em que eu entrava, à medida que minha mãe se despedia.
Afora a dor, desnecessário descrevê-la a você, viajante de tantos mares tortuosos e tempos tristes..., seguro com impaciência o lenço branco em que eu mesma havia depositado, horas antes,a derradeira lágrima dos olhos verdes, já cerrados. Uma lágrima que guardei e levarei comigo, em minhas gavetas, ao longo do tempo que me couber aqui.
Mansamente, então, ela se foi. Os ruídos e assombros ficaram por conta da natureza em volta, porque o corpo ali jazia, na paz de Deus que ela sempre evocou.
Meu amigo, há muito, ao longo do ano que fiquei sem lhe escrever, o que contar. Mas prefiro encerrar com apenas a notícia que, por ora, toma conta de mim, ainda, como um agasalho como que a  me proteger da realidade, do manso e necessário retorno a  ela.
Deixo você com as lembranças todas e, como sempre, desejo-lhe bons e mansos ventos.
O silêncio agora é atordoante e mergulho nele. É o que me cabe...
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quinta-feira, 26 de fevereiro de 2009

*carta de quase outono

***
Se alguém me dissesse que hoje já não é verão, eu acreditaria. Os dias têm sido cinzentos e têm um aspecto de despedida das festas, do sabor sensual do verão. É certo que as estações do ano não são mais tão definidas como já foram, um dia, mas, mesmo assim, alguma coisa dentro da gente avisa a passagem de uma para outra. Não crê nisso?
Ainda não é noite. Lá fora, o lusco-fusco de uma quinta-feira seguida às cinzas depois de um carnaval comum. Comum e sangrento, segundo os jornais. Eu ainda estremeço quando penso nisso - a violência ainda me assusta, ainda me entristece e jamais me parecerá banal.
O que me dói é a voracidade com que algumas pessoas se lançam a práticas terríveis em que demonstram a pouca importância que dão à própria vida.
Um gosto amargo me chega à boca e penso que toda a minha alma se vê assim - carecida de doçura.
Vai ver é por isso que busco você, nesta nova carta.
Nem sei se já recebeu - e leu- a última que enviei, pois não sei em que porto do mundo de mares tantos você está alojado, se agora é dia ou é noite, quase primavera ou quase outono...
Entretanto, buscar você parece ser o que mais me adoça a alma, nesses dias em que me demoro a reconhecer a dor de nossa raça, a mesma dor que parece tão grande quando o céu sobre nós, meu amigo. E eu o faço sem demora, quando a urgência me toma a mão que se lança à pena -quem dera fosse - para levar-lhe a minha letra carregada de nuanças femininas.
Há pouco eu o imaginei sentado à beira de um cais. A imagem me causou mais do que carinho, uma saudade imensa. Amigo do mar, poeta de tantas jornadas a navegar e a aportar quando bem se lhe dá. Ou, simplesmente, amigo meu.
Estou enviando uma fita de cor grená - você me disse, na última carta, que não conhecia a cor. Corri em busca de um exemplo e encontrei a fita de um cetim acariciante. Lembrei-me de que gosta de receber de mim as bobagens que mando, disse-me sentir fazendo parte de um imenso baú de recordações.
Espero que as cartas estejam dentro do seu. Porque são parte de nós e de nossa história.
Que esta fita acaricie seu rosto como a brisa dos seus finais de tarde junto ao cais.
Abraço você com meu nome, quando me despeço.
Até breve...
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sábado, 21 de fevereiro de 2009

* carta de sábado

***
Aqui, a noite me abraça como quem deseja apenas que eu me aquiete. Não há vento, além do que meu circulador produz, fazendo circular o mesmo ar quente, desses que tornam a gente insone e inquieto.
Escrever uma carta poderia ser uma das últimas opções numa noite assim,principalmente sendo sábado de carnaval. Contudo, se o momo me chama, eu não ouço, apesar de as imagens da tevê desfilarem cores fugidias que me escapam de quase todo e emanam um samba bom, comprido...como se não fosse acabar jamais.
Prefiro escrever. Não sei onde você está, mas tavez olhe uma estrela através de seu telescópio e descubra, num repente, que a noite adiantada ganhou um brilho a mais no céu ou perdeu um outro. Tudo isso é tão incerto,mas possível, como tudo possível é.
Gostaria de ter uma varanda, agora, e me recordo de quando havia uma onde eu morava, há anos..anos... [seriam anos-luz? como se mede o tempo do coração?]
Ah...amigo... minhas palavras saem de mim como pipas lançadas no céu da noite.
Ainda assim, espero sinceramente que elas o alcancem onde quer que você esteja.
Varanda.
Gosto da palavra.
Gosto da ideia.
Varanda.
O instante do vento quente já é depois.
Agora mesmo o ar está mais fresco e a noite me abraça com mais carinho,
já que sinto meus músculos menos tensos.
Amanhã acordo cedo e sigo para um café da manhã no hotel onde meu irmão está hospedado.
Ele ainda insiste em ficar nos hotéis. Gosta da sensação de estar "em casa" mesmo estando fora dela. Cada um é cada um. Isso não me incomoda. Como não me incomda a decisão das pessoas acerca de si mesmas. Amo essa liberdade que nos é concedida.
O que nos cabe é tão imenso e há tanta responsabilidade nisso...!
Já escrevo "pelos cotovelos" e exagero na tagarelice. Você quase perde sua estrela de vista.
Sigo daqui.
Deixo meu carinho hoje ameno e já descansado.
Ouço seu "boa noite" e me calo sorrindo.
Vou.
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quarta-feira, 31 de dezembro de 2008

*carta de um novo ano*

Havia meses que eu não escrevia uma carta sequer. Não que houvesse vazio os que as palavras se perdessem. Apenas abandonei - por um período - as cartas. Talvez em meu íntimo eu soubesse que você não as receberia de pronto e, assim, elas seriam mais inúteis que aquela chuva que cai sem encharcar a terra depois de longa estiagem...
Agora, pressinto seus olhos e seu coração voltado às minhas letras derramadas assim, livremente... e, além disso, é o último dia deste ano.
Eu não poderia fechá-lo sem dirigir-me a você - tão distante e tão próximo amigo de minhas palavras e de meus sentimentos.
Este dia, especialmente, vem com uma certa tristeza para mim - desde sempre. Não me pergunte por que, pois não conseguiria definir para lhe dar resposta.
Nem encontro, tampouco, uma figura de linguagem que me forneça um símbolo mesmo próximo de meu sentir.
Tudo que sei é que é uma sensação antiga e cansada.
Hoje, no entanto - é, neste preciso 31 de dezembro - ela somou-se a uma sensação de vazio. Gasta, enfadonha. E presente.
Reviro as gavetas buscando na memória dias em que estive próxima a você e que me deram o sentir de plenitude ao terminar esse tipo de ciclo do tempo linear... onde estão as fotos que guardei em minhas retinas?
Parece-me que o vazio é tão poderoso que invadiu tudo por aqui.
Parece-me que nenhum devaneio poderia aprisioná-lo a um canto enquanto eu me vestisse de alegria usando as roupas que nós dois fizemos, um dia, para colorir dores...
Hoje, precisamente. Nada sinto. Nem mesmo saudade.
Nada.
O que me assusta é o deserto de que jamais fui feita e onde, à noite, faz um frio insuportável para meu sangue quente e apaixonado de viver.
Entretanto, é mais uma experiência entre tantos sentires...e a ela me dirijo com a coragem que me cabe, já que o traçado de meus revezes é tão conhecido meu. E seu, também....amigo peregrino.
Assim, o que me resta por agora é tentar invadir sua órbita com um longo e afetuoso abraço meu. E, enquanto ropiarmos enlaçados a ouvir e admirar as estrelas, sussurrar como elas em seu ouvido e desejar: " bom recomeço, amigo...bons ventos a guiarem seu voar..."
De olhos fechados, buscarei reter o momento e finalmente trazê-lo comigo; será como um lenço umidecido em perfume a tornar minhas gavetas deliciosas caixas de recordação...
E, quando um cometa passar ventando, tão próximo a nós...acordarei tristonha do outro lado do mundo, mas repleta, ainda, de você.
Agradeço por você estar aí...em algum lugar...mas respirando e vivenciando nossa ternura.
E por partilhar...

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quinta-feira, 18 de setembro de 2008

**carta da manhã**

..
Lá fora, a madrugada deu espaço às primeiras cores da manhã e logo a luz vai inundar tudo o que vejo, tudo o que me cerca.
A sensação é a de que, se a noite foi longa, o dia pode ser
ainda mais precioso, uma bela página a ser escrita.
Com devoção.Estive pensando, durante o tempo em que esperei uma resposta sua, sobre as manhãs que vêm azuis cobertas do ouro de um sol menino. Você as chama de manhãs sagradas - são jóias preciosas demais para passarem despercebidas. Senti uma falta enorme de trocar idéias ou mesmo olhares com você. Há tão poucas pessas neste mundo que me entendem e, como você, não há mais ninguém. Chego a duvidar que você exista, muitas vezes - quando a noite é muito longa, sei que me sinto mais só do que deveria.
Então, escrevo para o vento da madrugada ou mesmo para a chuva ou,
até, para uma estrela que vi caindo - não há para onde cair, pois o universo é infinito.
Mas, escrevo.
E sigo numa linda que já nem sei se é reta ou para onde vai, porém escrevo e sigo.
E seguir é como uma canção que vou compondo dia após dia,
mesmo quando sinto ou penso que você não receberá, não lerá o que escrevo.
As cartas têm o dom de transformar o que a princípio parece não ter sentido.
Elas carregam sentimentos e o peso deles se faz precioso em cada linha.
Contudo, os olhos e a alma de quem lê acrescenta muito ao que se escreve.
Porque as palavras tomam um significado diverso para cada ser.
A gente toma para si as palavras,
apodera-se delas e faz do seu conjunto um momento pessoal, único.
Por isso, às vezes, eu me sinto como se pescasse
a energia dos sentimentos e das emoções que estão pelo ar.
E, quando retorno de tais pescarias, sinto-me repleta de milhares de pessoas.
Ou...de apenas uma...a quem jamais vi...com quem jamais falei...
É...para isso também servem as madrugadas em que me derramo
esperando as primeiras luzes da manhã.
Servem para me reconhecer aprendiz e, e alguma forma,
catalizadora do que se passa daqui até o topo do Himalaia.
E por que não?Há tanto o que sentir e perceber e há tanto mistério
em tudo ao nosso redor, ainda...
Pronto. Já é manhã.Devo, agora, ocupar meus pensamentos com as coisas deste dia
e ir escrevendo-o - ou sobre ele - para ir realizando a história de uma história.
Talvez a minha, talvez a sua.
Talvez a de mais alguém. Ou a de ninguém, ainda.
Contudo, eu me disponho a fazê-lo.
Com devoção...
A.
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sexta-feira, 15 de agosto de 2008

****arte


a última macieira, por E.B.

*carta de final de inverno

..
Lá fora, o inverno parece caminhar sem vontade para longe.
Os ipês começam a fazer alguma festa por aqui. E eu, é claro, me lembro de você. Durante anos estivemos juntos nesta época do ano, o momento em que a primavra se insinua no hemisfério sul, de forma leve, quase imperceptível.
Era quando começávamos a fazer planos para o verão seguinte. Eu me lembro de que havia dentro de mim uma expectativa, uma festa nascendo, uma sensação tão boa quanto o cheiro das primeiras flores de setembro.
Era uma constante e eu sentia que jamais a vida correria de outra forma. Como a gente se sente definitiva! Nada disso...as coisas, a vida, as pessoas, os dias, as estações do ano, a natureza...tudo muda...há transformação em tudo, porque nada é estático. E a vida flui, a gente querendo ou não.
Claro...essa é uma lição - clichê: fala-se muito nisso, porém aprender,vivenciar...
essa já é uma outra história.
Geralmente, aprende-se da forma mais crua.
É quando a gente sente que o tempo corta a pele e a carne da gente feito uma adaga de prata. Majestosa e fria.Preciosa adaga. Precioso tempo É. Precioso o tempo que vai e se perde na ampulheta repleta de areia dos desertos humanos. Da mesma forma, precioso o tempo que se arrasta entre uma estação e outra, enquanto tudo se prepara para ser diferente. O difícil é voltar os olhos para aquele tempo ali adiante: uma janela predisposta a intempéries, aberta, frágil, invadida pelo vento, pela chuva, pelos raios de sol.
Pelos sonhos e desejos. O mais difícil, meu amigo, é sentir precioso este tempo: o que ainda vem.
Eu continuo aqui. Os dias serão azuis de um azul diferente assim que esta última frente fria se despedir. E esperarei ou não sua resposta. Não importa. As cartas existem por si só.
A.
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segunda-feira, 30 de junho de 2008

****arte

do blog de clara: "reticências"

Carta de me deixar doer* (música: a flame in avalon)

Ficaria por mais tempo lendo Alberto Caeiro para você.
Ficaria o tempo que você quisesse dedilhando as notas de palavras
que se jogam ao vento do tempo e se transformam e vida, pura e simplesmente.
Mas, a noite caiu tão rapida e pesadamente sobre nós que meus olhos já não puderem enxergar as letras distorcidas pelas sombras.
A Lua? Era Nova...a tudo beijava com sombras...bem sabe você, bem sei eu.
O que nos restou foi o silêncio sem as estrelas
e o arrepio que o vento do sul provocou em nossa pele
e fez calar em nossa alma.
Nada além do vento e de mim tocou você.
Nada além de você tocou em mim.
Não há porque remexer em certas lembranças,
mas essa me veio com força e não pude me negar a ela.
Assim como não me nego às páginas que agora tentam se derramar de mim, sob a luz amarela que torna tudo tão esmaecido e gasto.
Sou eu, sem pedir resposta.
Sou eu, feito a garrafa preenchida com folhas de papel, largada no mar.
Sou eu. Acredito que isso ainda baste.
Porque sigo. E minha palavra segue.
Somos barcos à vela...tudo é silêncio...tudo é mar e céu.
Tudo é imenso e cabe... cabe em nós.
Até talvez. É mais certo do que "até breve"
e eu subscrevo a letra que acaba sendo imensa e infinita.
A.
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domingo, 22 de junho de 2008

****arte


*entre paredes e sombra*, de Mariah

Carta ao amigo de sempre

Sim, eu ainda escrevo cartas e ainda as leio,
nos dias que se demoram como se o tempo não fosse este, o agora, mas o de antes.
Você se lembra?
As tardes eram longas a ponto de nos deleitarmos
com observações, conversas, leituras e tanto mais...!
Sim. É claro que você se lembra, caso contrário não mais receberia ou responderia
minhas cartas, escritas deste jeito tão antigo, como o tempo que se perdeu...
ou, como o tempo que ganhou outro tempo...outros formatos...alegorias...
Ontem estive na praça em que você pintou a paisagem esmaecida de uma árvore que já morria... eu me demorei ali, onde ficamos sentados por muitas horas, até que o vento de final de tarde e a luz já não fossem mais hospitaleiros.
Aconteceu o mesmo...apenas eu não estava a pintar...observava, antes, o local vazio que a árvore deixou...alguns pássaros por ali nem mesmo sabem que houve o tempo de uma árvore majestosa bem onde eles bicavam e bicavam, sem importarem-se com as horas.
Afinal, meu amigo....que são as horas?
Acredito que este inverno esteja por se tornar mais seco do que o do ano passado...as manhãs nascem raiadas...o céu tem aquele azul de que você tanto gosta. Tanto melhor...assim pode-se sair e caminhar mais à vontade e aquecer-se ao sol ameno, mas vibrante.
Não há muito mais a dizer. Escrevo mais para que saiba que ainda escrevo, sim.
E estarei a escrever até quando, quem sabe, minhas mãos estremeceram com a chegada oportuna - sempre- de nossa tia-velha. Um dia...deve bem lembrar-se, demos esse nome ao que chamam de fim desta vida.
Então, já sabe.
Estou aqui. Exatamente aqui. Sentada à mesma escrivaninha que recebe a luz da janela e o bom ar que vem do sul.
Remeterei esta para você tentando incluir meu abraço mais amigo, para que se aqueça ao reconhecer-me presente.
Porque, afinal, meu amigo...enquanto estivermos nos escrevendo cartas, seremos a prova viva de que existe - e como existe - um bom motivo para se ter afeto.
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segunda-feira, 22 de outubro de 2007

******arte

por Gary Blanchette

*carta ao infinito

...
Algumas canções me remetem ao infinito e eu acabo presa ao espaço todo, tão amplo que é e, ao mesmo tempo, faz agonizar qualquer coisa em mim. Como se os dias que vêm trouxessem consigo uma noite maior do que todas as outras...a mais longa...
O que escrevo - e se escrevo - é para me despir e aliiar uma dor tão antiga que já não consigo definir e cujo códio não decifrei. As cartas seguem pelos mares do tempo e me levam consigo. Sou as letras perdidas entre as marés e, ao mesmo tempo, protegidas pelo vidro da garrafa secular que as ajuda a navegar.
Mas eu já me perco de mim e me transformo numa redundância que não se efetiva.
Sou, então, um sopro de mim é uma máscara veneziana dos carnavais eternos.
Eu escondo os rostos que se guardam de lágrimas e sorrisos.
Porque sigo - e quando eu sigo -,
os caminhos podem responder às questões
que me deixo fazer a cada gota que
me encontra desperta, nos dias que se abrem
após noites de serenos abundantes.
E eu me dispo das razões.
Elas não me têm.
Sou apenas poeira.
Ainda que de estrelas do mar.
Sou as cartas que deixo. Estou nelas esparramada
e eu as molho com minhas lágrimas
porque não sei escrever sem me entregar.
E respiro fundo porque, aqui, no mar de letras
que não têm fim, eu me deixo descansar.
Assino meus dias assim.
O tempo passa por mim e me atravessa.
Eu, criança ainda, diante do infinito
desse senhor inabalável,
curvo-me e aceito as marcas
que me fazem inteira - e feliz.
A.
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quarta-feira, 22 de agosto de 2007

******arte

de Jana Vanourkova

***Folhas que caem

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Como nos dias em que esperei pelos abraços mais demorados e quentes.
Eu me vesti de inverno e fiquei à margem da rua, onde,
agora, restam umas poucas árvores nuas.
Porque as folhas se perderam com o vento frio
dos últimos momentos do inverno.
Que as bênçãos cubram a chegada da primavera.
E que a gente possa sorrir.
A.
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