domingo, 22 de junho de 2008

Carta ao amigo de sempre

Sim, eu ainda escrevo cartas e ainda as leio,
nos dias que se demoram como se o tempo não fosse este, o agora, mas o de antes.
Você se lembra?
As tardes eram longas a ponto de nos deleitarmos
com observações, conversas, leituras e tanto mais...!
Sim. É claro que você se lembra, caso contrário não mais receberia ou responderia
minhas cartas, escritas deste jeito tão antigo, como o tempo que se perdeu...
ou, como o tempo que ganhou outro tempo...outros formatos...alegorias...
Ontem estive na praça em que você pintou a paisagem esmaecida de uma árvore que já morria... eu me demorei ali, onde ficamos sentados por muitas horas, até que o vento de final de tarde e a luz já não fossem mais hospitaleiros.
Aconteceu o mesmo...apenas eu não estava a pintar...observava, antes, o local vazio que a árvore deixou...alguns pássaros por ali nem mesmo sabem que houve o tempo de uma árvore majestosa bem onde eles bicavam e bicavam, sem importarem-se com as horas.
Afinal, meu amigo....que são as horas?
Acredito que este inverno esteja por se tornar mais seco do que o do ano passado...as manhãs nascem raiadas...o céu tem aquele azul de que você tanto gosta. Tanto melhor...assim pode-se sair e caminhar mais à vontade e aquecer-se ao sol ameno, mas vibrante.
Não há muito mais a dizer. Escrevo mais para que saiba que ainda escrevo, sim.
E estarei a escrever até quando, quem sabe, minhas mãos estremeceram com a chegada oportuna - sempre- de nossa tia-velha. Um dia...deve bem lembrar-se, demos esse nome ao que chamam de fim desta vida.
Então, já sabe.
Estou aqui. Exatamente aqui. Sentada à mesma escrivaninha que recebe a luz da janela e o bom ar que vem do sul.
Remeterei esta para você tentando incluir meu abraço mais amigo, para que se aqueça ao reconhecer-me presente.
Porque, afinal, meu amigo...enquanto estivermos nos escrevendo cartas, seremos a prova viva de que existe - e como existe - um bom motivo para se ter afeto.
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segunda-feira, 22 de outubro de 2007

******arte

por Gary Blanchette

*carta ao infinito

...
Algumas canções me remetem ao infinito e eu acabo presa ao espaço todo, tão amplo que é e, ao mesmo tempo, faz agonizar qualquer coisa em mim. Como se os dias que vêm trouxessem consigo uma noite maior do que todas as outras...a mais longa...
O que escrevo - e se escrevo - é para me despir e aliiar uma dor tão antiga que já não consigo definir e cujo códio não decifrei. As cartas seguem pelos mares do tempo e me levam consigo. Sou as letras perdidas entre as marés e, ao mesmo tempo, protegidas pelo vidro da garrafa secular que as ajuda a navegar.
Mas eu já me perco de mim e me transformo numa redundância que não se efetiva.
Sou, então, um sopro de mim é uma máscara veneziana dos carnavais eternos.
Eu escondo os rostos que se guardam de lágrimas e sorrisos.
Porque sigo - e quando eu sigo -,
os caminhos podem responder às questões
que me deixo fazer a cada gota que
me encontra desperta, nos dias que se abrem
após noites de serenos abundantes.
E eu me dispo das razões.
Elas não me têm.
Sou apenas poeira.
Ainda que de estrelas do mar.
Sou as cartas que deixo. Estou nelas esparramada
e eu as molho com minhas lágrimas
porque não sei escrever sem me entregar.
E respiro fundo porque, aqui, no mar de letras
que não têm fim, eu me deixo descansar.
Assino meus dias assim.
O tempo passa por mim e me atravessa.
Eu, criança ainda, diante do infinito
desse senhor inabalável,
curvo-me e aceito as marcas
que me fazem inteira - e feliz.
A.
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quarta-feira, 22 de agosto de 2007

******arte

de Jana Vanourkova

***Folhas que caem

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Como nos dias em que esperei pelos abraços mais demorados e quentes.
Eu me vesti de inverno e fiquei à margem da rua, onde,
agora, restam umas poucas árvores nuas.
Porque as folhas se perderam com o vento frio
dos últimos momentos do inverno.
Que as bênçãos cubram a chegada da primavera.
E que a gente possa sorrir.
A.
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segunda-feira, 20 de agosto de 2007

***Quase primavera

Enquanto eu pensava nas estrelas que eu gostaria de ouvir,
o mundo deu muitas voltas em torno de si mesmo. Por isso - antes de qualquer outro motivo - há uma corda que se lança em uma direção que eu
mesma não tomaria, caso coubesse a mim essa escolha.
Um vasto território deserto se estende diante de mim e eu me rendo diante da amplidão.
Enquanto escrevo, as horas se repetem e com elas se repetem
os sons estranhos que ouço nestes dias que antecedem a primavera.
É como se o mundo se acomodasse um pouco para receber mais brilho e leveza.
Ele realmente girou e girou e eu não ouvi as estrelas.
Penso que isso, afinal, não é para todos e muito menos para todos os momentos.
Devaneios.
As cartas servem para isso também.
A.
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quinta-feira, 2 de agosto de 2007

Uma quinta-feira qualquer

Faz tempo.
Estive aqui em maio, com minha última carta.
Hoje, início do mês de agosto, volto menos reconfortada do que desejo e mais
sozinha do que mereço. Ou, do que acredito que mereço.
Os dias se passam com rapidez essencial ao manejar imperioso
deste tempo em que vivo às turras com o relógio.
Então, sou um vulto passando, sentada em um dos cavalos do carrossel
gigante. Além disso, não sou nada.
.
Aqui, em minhas cartas, mora a janela em que
consigo me debruçar de dentro da prisão.
São apenas palavras, mas as palavras
são tudo o que realmente tenho
e eu continuo lançando-as como sementes
pelos campos em que corro sem me dar
conta do destino delas.
.
Se eu peco, peco pelo excesso
de sentimento.
Disto, não tenho a menor dúvida.
Vida pequena, esta.
Caminhada que sempre é recente,
mesmo que eu me sinta tão antiga.
O carrossel gigante não pára.
Nem há por que parar.
Tudo se movimenta,
inclusive as palavras que eu lanço.
E voltam, voltam
para mim.
...
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